Lendo
O risco de ser humano nas pandemias

O risco de ser humano nas pandemias

Na conversa com a antropóloga Leila Jeolás, o tema que nos intriga, de tempos em tempos, de pandemia em pandemia.

 

“Que riscos podemos gerenciar racionalmente e que outros riscos são escolhas (mais ou menos conscientes) que decidimos correr em nossas vidas?”

Com esse questionamento feito em um texto publicado em sua página no Instagram, a antropóloga Leila Sollberger Jeolás, de Londrina (PR), abre o debate sobre as dificuldades que temos ao enfrentar as pandemias, especialmente, a mais recente, a pandemia da Covid-19.

Conversei com Leila via on line no início deste 2021 e falamos sobre a dificuldade que temos, como seres humanos, de aprender com acontecimentos coletivos, como essa pandemia atual.  Fazendo um paralelo, Leila comparou a pandemia da AIDS, na década de 1980, e a atual, quando, pouco mais de 25 anos depois, repetimos atitudes como negar que todos estamos vulneráveis à doença, pregando que ela é “seletiva” e que, portanto, não precisamos nos prevenir.

No início da pandemia da AIDS, os gays apareciam como o “grupo de risco” da doença. Isso deu à sociedade o “álibi” de que, estando fora desse chamado grupo de risco, não precisaríamos nos cuidar. E, no entanto, as estatísticas vêm revelando, ao longo dos anos, que a AIDS está em toda a parte se você não se cuidar, sejamos nós jovens, velhos, gays ou heterossexuais.

E o que vemos hoje, com a pandemia da covid-19? A mesma coisa: a princípio, somente os velhos foram considerados grupo de risco, num argumento aparentemente “lógico” de que os jovens estariam livres de “pegar o vírus”. Mais rapidamente do que aconteceu com a epidemia da AIDS, em pouco mais de um ano o que se viu foi exatamente o mesmo caminho sendo seguido pelo vírus da Covid-19. Ou seja: somos todos vulneráveis à doença, estejamos nós nos ônibus lotados do dia a dia para o trabalho ou sobrevoando os “pobres mortais” em nossos helicópteros de última geração.

Afinal, por que “escolhemos” nos contaminar?

Leila diz que tem muito a ver com a educação em saúde. “Se pensarmos na questão do tabaco, do álcool, tudo que implica uma modificação de comportamento tem a ver com isso. Eu fiquei 10 anos trabalhando com a AIDS (ela foi uma das fundadoras da ALIA, a Associação Interdisciplinar da AIDS, em Londrina) e os questionamentos eram esses: porque, mesmo sabendo da necessidade de prevenção, de utilizar a camisinha, as pessoas não usam a camisinha e pegam a AIDS?”

Em relação à Covid a conversa é a mesma, diz a antropóloga. “Tem a ver com uma coisa recorrente na história da humanidade, que é a questão do perigo, o risco da vida em relação à morte. Como é que a gente lida com isso? De maneiras muito diferentes. Tem uma antropóloga que diz que “não avaliamos se corremos risco ou não; na verdade, a gente atribui valor aos resultados e consequências do risco. E aí vai depender de que valor a gente atribui.”

Em relação à AIDS, Leila exemplifica com o seguinte diálogo:

– Ah, eu estava lá, conheci uma figura superlegal, bateu um tesão, nós tínhamos tomado umas cervejas… e não tinha camisinha. Ah, mas a gente vai transar.

“E por quê? Porque o valor do afeto, do prazer preponderou sobre a possibilidade de por a vida em risco”, responde Leila.

Nesse sentido, “gerenciar racionalmente ou não os riscos” é um pensamento preciso que serve ao debate, mas não se aplica completamente à realidade, já que as situações e valores dados ao momento da pandemia são imprecisos. “É o que está acontecendo agora. Por exemplo: para nós, profissionais que podemos fazer home office, talvez o risco de se expor seja valorizado de uma maneira diferente do que a do menino que pega ônibus lotado todo o dia, se expõe ao risco dentro do ônibus, no trabalho, ganha um salário mínimo, e não pode sair para beber, para uma balada com os amigos?

Então, o valor da exposição ao risco, aí, tem que ser contextualizado. Depende o lugar que se ocupa na sociedade. E aí, o lugar do jovem é diferente do lugar da terceira idade.”

O velho não tem mais tanto ímpeto de sair para a balada, o que é o inverso do jovem, e aí nascem as diferenças e as contextualizações de como pensar e agir durante a pandemia.

Mas não é só isso. Há muitos outros fatores envolvidos nessa conversa. Conversa, aliás, que está no podcast Pandemia – os riscos que corremos.

Ouça.

Nesse bate-papo que tive com Leila Jeolás está um panorama sintético sobre esse tema. Vale a pena ouvir e conhecer a antropóloga que escreveu, entre outros, o livro RISCO E PRAZER, os jovens e o imaginário da Aids.

E sobre a atual pandemia da Covid-19, Leila escreveu, e está aqui no blog Ser Humana, o artigo Jovens, risco e Covid-19.

Leia.

Leila Jeolás tem uma página no Instagram com textos e ideias bem bacanas.

Vale a pena seguir: @leilajeolas

Ver Comentários (0)

Leave a Reply

Your email address will not be published.