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Frances Farmer e a castração do pensamento próprio

Frances Farmer e a castração do pensamento próprio

Jornalista, atriz e mulher de ideias contestadoras, a americana foi chamada de insana, internada em hospícios e vítima de lobotomia.

Em 1982, quando eu ainda era uma estudante de jornalismo na Universidade Estadual de Londrina (PR), assisti a um filme que me deixou chocada e extremamente triste. Saí do cinema impressionadíssima com a história de Frances Farmer, atriz americana que, como tantas de sua época, viveu o drama de ser considerada uma louca.

Ela até pode ter sido uma portadora de transtornos psíquicos, pois, ao que consta, teria sintomas de bipolaridade, mas, certamente, foram seu voluntarismo, independência e personalidade forte que parecem tê-la levado mais rápido às internações e tratamentos absurdos da psiquiatria da época.

Frances Farmer viveu entre os anos de 1913 e 1970. Inteligente, a americana vinha de uma família de classe média na qual era filha caçula. Influenciada pela mãe Lilian – que tinha o sonho frustrado de ser atriz -, atendeu às suas insistências para que entrasse para Hollywood. E Frances conseguiu, mas não quis atender aos “critérios” de um contrato que a obrigava a ser “boazinha”, participar de festas e fazer papeis de “boa moça”, com os quais não concordava.

Tinha talento com as palavras e chegou a se formar em jornalismo, segundo consta. Fazia discursos em favor das mulheres e seus direitos e evocava os preceitos de Nietzsche, o que a levou a expressar sua descrença em Deus, uma aberração para os bom comportamento familiar da época.

Bem, para os dias de hoje também, pois algumas coisas não mudaram muito… ou quase nada.

Uma das paixões de Frances era escrever artigos em que criticava os dogmas da sociedade da época, o que chamou a atenção, inclusive, dos “caçadores de bruxas” dos tempos anticomunistas nos Estados Unidos.

Não exerceu o jornalismo, considerando o apelo da mãe para ser atriz.

Frances era rebelde, o que, por si só, nessa época, significava um atestado de “fora da ordem”, fora das leis. E sendo mulher e não cumprindo seu papel social de boa moça precisava ser contida. Ela odiava ter que seguir roteiros que não lhe cabiam, ainda assim, aceitou diversas vezes fazer concessões impostas por sua mãe, como ser atriz de cinema, casar-se por conveniência do meio artístico e não se dedicar ao jornalismo, como sentia ser sua vocação.

Somando tudo isso a uma personalidade forte, arroubos contra a imprensa, a polícia e as autoridades por ocasiões em que bebeu demais e transgrediu as leis, Frances fez o papel principal no roteiro de uma vida tumultuada e dias turbulentos que levaram a família e a Justiça a interná-la em hospitais psiquiátricos.

Nessas instituições, que viviam tempos áridos com uma psiquiatria ainda baseada em métodos grotescos, a jovem logo se depauperou. Foi submetida à terapia de eletrochoques e do coma insulínico, banheiras de gelo e outras barbaridades. E sofreu, ainda, ataques de estupro no próprio hospital em que estava internada, o que colaborou para deixar sua psique ainda mais em frangalhos.

Foram idas e vindas, tempos de calma e de descontrole. Jamais uma vida tranquila.

Até que, na última internação, sem autorização da família, Frances foi submetida a uma lobotomia, um “tratamento” em alta na época entre os psiquiatras. Só para constar, lobotomia, segundo registram os dicionários, “é uma intervenção cirúrgica no cérebro na qual são seccionadas as vias que ligam as regiões pré-frontais e o tálamo, usadas no passado em casos graves de esquizofrenia (…). A técnica foi criada em 1933 pelo médico português A. Egas Moniz (1874-1955), que recebeu por isso o Prêmio Nobel, em 1949.”

A lobotomia era utilizada para tratar distúrbios psiquiátricos que hoje têm controle com psicoterapia e remédios apropriados. No entanto, no tempo de Frances, acreditava-se na cura dessas doenças com tratamentos que “acalmavam” o doente. A lobotomia era uma dessas técnicas.

Informa a revista Galileu (Ed. Globo) que “ao saber dos resultados positivos obtidos por Moniz, o neurologista norte-americano Walter Freeman (1895-1972) introduziu no país uma variante da técnica denominada lobotomia transorbital. A cirurgia consistia na inserção de um furador de gelo abaixo das sobrancelhas até a sua penetração no lobo frontal.”

Foi exatamente Walter Freeman, por volta de 1948, que orientou a lobotomia transorbital na atriz.

Na matéria A herança da lobotomia, a revista reporta que “somente nos Estados Unidos foram realizadas cerca de 40 mil lobotomias entre o final da década de 1930 e meados dos anos 1960, segundo o livro A Mente Desconhecida, do jornalista John Horgan. A técnica, usada em doentes mentais e também em prisioneiros considerados incorrigíveis, começou a perder força na década de 1950, devido às objeções éticas em relação aos danos irreversíveis causados ao cérebro – e, consequentemente, à qualidade de vida dos pacientes – e ao surgimento dos medicamentos para transtornos mentais.”

Assim, a lobotomia tirou toda “a vida” de Frances, deixando-a com os pensamentos inertes e reduzindo a atriz a um “zumbi”, bem longe daquela mulher viva e explosiva que poderia ter tido uma vida criativa e feliz.

À época, Frances Farmer recebeu, pelo menos, dois diagnósticos de transtornos psíquicos: um de esquizofrenia paranoide e outro de psicose maníaco-depressiva, como era chamada na época o transtorno bipolar. Nada parece conclusivo, já que as técnicas e o formato dos hospitais psiquiátricos, muitas vezes, davam diagnósticos de doenças mentais a quem nada tinha (leia matéria Aos loucos os terrores “normais” sobre o Hospital Colônia de Barbacena).

Frances seguiu sua vida, envolta em outros desafios e sempre muitas dificuldades. Foi lavadeira em hotel e apresentadora em programa próprio de entrevistas na TV, mas prosseguiu com problemas de ataques de fúria, vício em álcool e dificuldades sociais, o que demonstra que jamais se curou do que, imagina-se, tenha sido um transtorno psíquico.

Vale a pena assistir ao filme Frances, de Gramm Clifford, rodado em 1982. Há também a autobiografia Será que alguma manhã virá?, na qual Frances relata os horrores vividos nos hospitais em que foi internada. A obra foi publicada por amigas, após a morte da atriz, em 1970, e serviu de inspiração para um filme com o mesmo nome, lançado em 1983.

No filme Frances, a atriz Jessica Lange encarna toda a dor, alegria e aflições vividas pela mulher Frances Farmer. O papel, que foi cogitado para outras atrizes mais famosas à época, acabou revelando não só a personagem histórica de Frances, mas também a qualidade da interpretação de Lange num papel dificilíssimo e instigante.

Eu era uma garota de 20 anos, vivendo ainda os restos de uma ditadura militar e empolgada com meu estilo rebelde de ler livros proibidos e ingressar no movimento estudantil. Saí do cinema ainda mais revoltada, somando à minha lista de inconformismos essa história incompreendida da mulher que quis ser simplesmente ela mesma.

Lembro-me de ter ficado alguns dias com aquelas cenas grotescas na cabeça.

Hoje, três décadas e nove anos depois, remexendo em coisas de ontem e de hoje para escrever para este blog, continuo com quase a mesma sensação. Tirando os exageros e arroubos próprios da juventude, prossigo abismada com o quanto já destruímos pessoas com essa nossa ignorância, esse preconceito, a arrogância e a fome de poder. As mulheres são vítimas permanentes. Sempre as “loucas”, as “histéricas”, as descontroladas… mesmo que doentes, diagnosticadas e tratadas, como hoje é possível, ainda assim não merecem crédito.

Imagina ser mulher e ter ideias próprias!

Ser diferente, enfim, é uma tatuagem na testa que não desaparece. Não é de hoje. E parece infinita.